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dezembro 30, 2012

.menú ou menu?


Espécime colhido esta manhã, a caminho da peixaria...
 
1. O acento no u nas palavras oxítonas (agudas) é já um clássico, pois é muito comum vermos “menú”, “perú”, “cangurú”, “cajú”, “nú”, “urubú”, etc.
2. Ao consultarmos uma gramática, neste caso, a Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra (1984), podemos ler na primeira regra de acentuação: “Assinalam-se com acento agudo os vocábulos oxítonos que terminam em a aberto, e e o semi-abertos, e com acento circunflexo os que acabam em e e o semifechados, seguidos ou não de s: cajá, hás, jacaré, pés, seridó, sós, dendê, lês, trisavô; etc.
3. O caso das oxítonas terminadas em i e u é diferente, dado que, em geral, não são acentuadas. Passemos aos casos das palavras em que há acento.
a) Nas terminadas em i, seguido ou não de s: há acento quando o i é antecedido de u ou a com que não forma ditongo (cai, mas caí; pai, mas país; fui, mas Luís);
b) Nas terminadas em u, seguido ou não de s: só há acento quando o u é antecedido de a com que não forma ditongo (baú/s).
CONCLUSÃO: já era e continua a ser menu!
Dica:
São raros os casos em que há acento em palavras terminadas em u (para além de baú, só encontrei Anhagabaú, topónimo da região de S. Paulo, e Esaú, personagem bíblica).
Assim sendo, em caso de dúvida…            
                                                    Não acentue o u final, seguido ou não de s!
Abraço!
AP

dezembro 29, 2012

.Há texto e testo...


Como eu faso um testo dissertativo?
presiso faser um texto dissertativo para a escola

Eis-nos perante duas palavras parónimas (trocando por miúdos: “parecidas”, tanto na escrita como na pronúncia) que muitas dores de cabeças dão às nossas crianças em início de aprendizagem da língua portuguesa.
Enquanto o texto é um enunciado (escrito ou oral), o testo é uma tampa (de panela, tacho…).
Embora o habitual seja pronunciar, no português europeu, “têisto” (texto) e “têsto” (testo), há zonas de Portugal (como no Alentejo e no interior do Algarve) em que as duas palavras se dizem da mesma forma: “têsto”. Ao contrário do que defendem alguns autores mais “puristas”, sendo diferente, essa forma de pronunciar não se deve considerar erro. Tal diferença é uma variação inerente ao sistema da língua. Como dizem Lindley Cintra e Celso Cunha, "essa multiplicidade de realizações do sistema em nada prejudica as suas condições funcionais." (Nova Gramática do Português Contemporâneo).

Abraço.
AP
Nota: Penso que, no português do Brasil, a palavra texto também é pronunciada “têsto”. Algum(a) internauta brasileiro(a) pode ajudar-me a confirmar esta pronúncia? Obrigado. 

dezembro 28, 2012

.vende-se ou vendem-se casas? (reformulado)

Fonte: AQUI.
Eis a prova de que "o povo tem o poder criador", como dizem Celso Cunha e Lindley Cintra na sua Nova Gramática do Português Contemporâneo...
 
Muito quente, linguistamente falando, o assunto de hoje. Opiniões que se opõem, outras a conciliar diferentes perspetivas, dificultando o uso da língua pelos utentes não especializados na matéria.
A. Como aprendi e sempre ensinei: Vendem-se casas
Estamos perante uma construção passiva com a partícula apassivante se, em que o sujeito é casas. Se o sujeito está no plural, o predicado tem de estar de acordo… quer queira quer não!
Nesta opinião, tenho o apoio dos clássicos. Rodrigo de Sá Nogueira diz, no Dicionário de erros e problemas de linguagem, página 395: "-- Diga-se: "vendem-se selos" e não vende-se selos"; "compram-se móveis antigos" e não "compra-se móveis antigos"; "encadernam-se livros" e não "encaderna-se livros".
B. O que defendem alguns autores: Vende-se casas
1. Transcrevo um pequeno extrato de uma resposta dada no Ciberdúvidas em 2003: “Há autores que consideram que o se é pronome indefinido, funcionando assim como sujeito; então estas frases seriam «vende-se casas» = «alguém vende casas», «colhe-se flores» = «alguém colhe flores», etc.
Discordo deles. O se pronome indefinido emprega-se com verbos intransitivos, em frases como «trabalha-se bem nesta casa», «vive-se mal nesta terra»: alguém trabalha, alguém vive – sujeito indefinido, verbo no singular.
2. Encontrei no http://veja.abril.com.br um artigo muito interessante a defender, “com unhas e dentes”, “que faz mais sentido interpretar o “se” (...) como índice de indeterminação do sujeito.”, referindo que o conhecido gramático Evanildo Bechara considera como “sintaxes corretas” vendem-se casas e vende-se casas. Aconselho a leitura integral AQUI.

CONCLUSÕES:
Na minha opinião, deveríamos dizer:  vendem-se casas
Mas...
Há quem defenda, como vimos, a construção vende-se casas
Nota: Irei consultar novas fontes e, se se justificar,voltarei ao assunto.
 
Abraços.
AP



dezembro 27, 2012

.contanto ou com tanto?

Ambas as grafias são possíveis, mas com sentidos e contextos diferentes.
A. Contanto que
Locução conjuncional condicional equivalente a desde que, uma vez que. Exemplo: Vamos ao cinema, contanto que arrumes o teu quarto primeiro!
B. Com tanto
Expressão constituída pela preposição com e o advérbio de quantidade tanto.
Exemplo: Com tanto medo, nunca vais tomar uma decisão.

Abraço.
AP

dezembro 26, 2012

.alibi ou álibi?

Fonte da imagem: AQUI.

Embora provenha do latim alibi, a grafia correta é, em todo o mundo da lusofonia, álibi! Deve pronunciar-se como palavra proparoxítona (esdrúxula) que é.
Estranhamente, o dicionário brasileiro Aulete regista, para além de álibi, a grafia alibi. Deve tratar-se de um lapso.

Abraço.
AP



dezembro 24, 2012

Que seja um bom Natal... para todooos vósss!

Fonte da imagem: AQUI.
 
 
Um abraço tecido de afetos para todos os utentes da língua portuguesa!
Annio Pereira

dezembro 23, 2012

.uma filhó ou uma filhós?

Clique AQUI e tenha acesso à fonte da imagem com uma receita bem tradicional: "Filhoses à moda da Beira Alta".

Agora que as festas natalícias estão quase no auge, devemos dizer: Dê-me aí uma filhós ou uma filhó? Pedido seguido de um imprescindível "se faz favor", bem entendido!
Saboreie a supertípica especialidade sem preocupações linguísticas, pois as duas palavras estão corretas e são sinónimas. Alguns autores, numa postura mais conservadora, condenam o uso de filhós no singular. E é como gosto de dizer, no prazer antecipado de a receber, quentinha, ostentando, dengosa, uma alma bordada a açúcar e a pontos de canela.
Filhó tem como plural filhós, enquanto filhósfilhoses.
Esta nossa língua portuguesa é mesmo uma gracinha!
Boas filhoses para todos!
AP

P.s.: E já agora, porque não quero que vos falte nada, deixo uma informação técnica sobre a coexistência destas duas doces e olorosas palavras:
"Ao processo de uma forma plural passar a ser empregue para designar também o singular, Evanildo Bechara dá o nome de "plural cumulativo" (ver Moderna Gramática Portuguesa, Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 2002, pp. 128-129). O mesmo fenómeno acontece com os substantivos  ilhó e ilhós, eiró e eirós, lilá e lilás, por exemplo."  In http://www.flip.pt/Duvidas-Linguisticas/Duvida-Linguistica.aspx?DID=4933

dezembro 22, 2012

.cheio ou enchido?


Mais um caso a pedir um detetive!

A. O que se diz no Ciberdúvidas
1. “[Pergunta] Devo escrever: o contentor vai ser enchido (com carga) ou "vai ser cheio"? Carlos Silva :: :: Portugal
[Resposta] Julgando que o consulente deseja saber se deve dizer «o contentor vai ser enchido» ou «vai ser cheio», cumpre afirmar que só da primeira forma a frase fica certa, pois o verbo encher não tem mais nenhum particípio passado. Cheio é mero adjectivo, que se pode usar, p. ex., com alguns verbos: estou cheio, ficou cheio. F. V. Peixoto da Fonseca :: 09/01/2002”
2. Na rubrica “Verbos com particípio passado duplo”, podemos ler: “Encher: («Ter...») enchido; («Estar...») cheio

B. Outras fontes
A generalidade dos dicionários de verbos de Portugal e Brasil que consultei dão razão a Peixoto da Fonseca, registando um único particípio passado: enchido. Mas…
. O conhecido www.conjuga-me.net apresenta, a vermelho, cheio, a seguir a enchido
. E para a confusão ser total, o Portal da Língua Portuguesa regista:
Particípio passado
cheio / enchido
 cheia / enchida
cheios / enchidos
 cheias / enchidas

Conclusões para todo o universo lusófono:
1. Cheio é ou não particípio passado de encher, a par de enchido?
Considerando o que diz o Portal da Língua Portuguesa e a resposta da consultora Ana Martins dada no Ciberdúvidas em 2006, diria que cheio é um adjetivo participial, logo também particípio passado de encher.

2. Quando devemos empregar cheio e enchido?
O uso de cada um dos particípios depende da frase e do contexto. Eis as dicas possíveis:
à Ter + enchido. “Depois de ter enchido o copo, senti o aroma do licor.”
à Estar + cheio. “O balde estava cheio de lixo.”
à Com outros verbos:
. Voz ativa + cheio. “O autocarro foi cheio de gente.”
. Voz passiva + enchido. “O autocarro foi enchido de gente pelo Clube Náutico”

Apliquemos as nossas dicas a este pequeno texto que encontrei num fórum:
“Boas!
Em conversa com colegas de trabalho, surgiu-nos uma dúvida que ninguém sabe qual a resposta correcta.
exemplo:
1. "O molde foi cheio/enchido..."
2. "O molde está a ser cheio/enchido..."
3. "O molde está cheio/enchido..."
4. "O molde vai ser cheio/enchido..."
Qual das afirmações está correcta?”
In http://forum.autohoje.com/off-topic/77803-cheio-ou-enchido.html

Respostas:
Exemplo 1: Duas respostas possíveis: “O molde foi cheio de alfinetes.” (voz ativa) e “O molde foi enchido de alfinetes pela costureira.” (voz passiva)
Exemplo 2: “O molde está a ser enchido.” (voz passiva, pois subentende-se que alguém está a encher o molde).
Exemplo 3: “O molde está cheio.” (estar + cheio)
Exemplo 4: “O molde vai ser enchido.” (voz passiva, pois subentende-se que alguém vai encher o molde).
Abraço e um fim de semana... em cheio!
AP
Fonte da imagem: AQUI.

dezembro 20, 2012

.catorze ou quatorze? (atualizado)


A. À pergunta de um consulente português sobre o uso de catorze e quatorze, foi dada há três dias, no Ciberdúvidas, a resposta que passo a transcrever.
O Vocabulário Ortográfico do Português, do ILTEC, regista a forma catorze, assinalando a variante quatorze (Brasil).
Por sua vez, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Porto Editora, atesta as duas formas: catorze e quatorze, sem qualquer indicação de que se trataria de variantes do português europeu e/ou do Brasil.
Por seu lado, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, contempla, também, as duas formas: catorze e quatorze.
Portanto, como não há qualquer indicação contrária no Acordo Ortográfico de 1990, as duas grafias estão corretas. No entanto, em Portugal prefere-se tradicionalmente catorze, e no Brasil o uso favorece a mesma grafia, conforme comenta Maria Helena de Moura Neves, no Guia de Uso do Português (São Paulo, Editora Unesp, 2003): «[Catorze e quatorze] [s]ão formas variantes, e quatorze é bem menos usual [...].» (Eunice Marta :: 17/12/2012)
B. No mesmo Ciberdúvidas, encontramos esta resposta de Peixoto da Fonseca, em 2004:
Quatorze é a forma predominante no Brasil, por influência de quatro, tanto na escrita como na pronúncia. Em Portugal só existe catorze, que representa a evolução do latim quattuordecim, sem o retrocesso operado no Brasil (...). (F. V. Peixoto da Fonseca :: 16/07/2004)
C. Consultando o Dicionário de Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo, edição de 1913, podemos ler: “*Catorze*, adj. O mesmo ou melhor que quatorze.
D. Para o Brasil, apesar da posição de Maria Helena Moura Neves, referida em A., a generalidade das fontes que consultei considera ambas as formas corretas, pondo-as no mesmo patamar.


Faço ao exposto, reformulei a mensagem publicada em julho passado (em que adotava um ponto de vista próximo do que está expresso na resposta de Peixoto da Fonseca), apresentando agora uma perspetiva menos restritiva.

CONCLUSÕES:
Portugal
 catorze é a forma mais comum, correspondendo à evolução a partir do latim. Embora tal uso não seja habitual, não deve considerar-se incorreto o recurso à forma quatorze.
Brasil 
catorze e quatorze estão ao mesmo nível, podendo o falante escolher a forma que quiser usar.

Nota: Optando por quatorze, o u deve ser pronunciado: “kuatorze”

Abraço!
AP
Fonte da imagem: AQUI.
 

dezembro 16, 2012

.sande, sandes, sanduíche ou sandwich?

Esta maravilha é um(a) sande, sandes, sanduíche ou sandwich?

O assunto de hoje é interessantíssimo. Grandes diferenças entre Portugal e Brasil. Dois géneros, dois números… emoções linguísticas garantidas!
A. No Brasil, é simples: apenas sanduíche. Mas… é do género masculino!
B. Em Portugal, não uma… nem duas… nem três… mas quatro formas para designarmos o conhecido conjunto de duas fatias de pão entre as quais podemos colocar quase tudo o que quisermos.
a) Num registo mais popular, temos o caso insólito de um nome de dois números: sande/sandes;
b) A unir-nos ao Brasil, temos sanduíche… mas do lado de cá é do género feminino! Esta é a única grafia que encontramos, em 1913, no Dicionário de Língua Portuguesa de Cândido de Figueiredo;
c) Finalmente, podemos ainda usar o estrangeirismo sandwich (registado no Portal da Língua Portuguesa e no dicionário da Academia das Ciências de Lisboa).

CONCLUSÕES:
Portugal 
uma sanduíche, sande, sandes e sandwich (em itálico ou entre aspas)
Nota: Em todos os casos, género feminino.
Brasil 
um sanduíche
Nota: Sempre no género… masculino!

Abraço e bom resto de domingo!
AP
P.s.: Fonte da imagem: AQUI.



dezembro 15, 2012

.E a 1ª pessoa do presente do verbo remir é… (reformulado)

Fonte da imagem: AQUI.

A. Por estranho que pareça, a resposta é… eu redimo!
Aqui fica a conjugação de todas as pessoas do presente do verbo remir:
Eu redimo / tu redimes / ele redime / nós remimos / vós remis / eles redimem

B. Este é, para mim, um dos verbos mais estranhos da língua portuguesa, uma vez que a sua conjugação se cruza com o verbo redimir no presente do indicativo e no imperativo. No caso do presente do conjuntivo (no Brasil, subjuntivo), remir assume mesmo todas as formas de redimir (que eu redima, que tu redimas, etc.).

 
C. Embora os dicionários de verbos da Priberam e da Porto Editora considerem remir como um verbo defetivo, conjugado apenas na 1ª e 2ª pessoas do plural, segui a opinião do linguística Rodrigo de Sá Nogueira (tanto no seu Dicionário de Verbos como no Dicionário de erros e problemas de linguagem, ambos da Clássica Editora). Nesta última obra, pode ler-se, na página 375: "remir conjuga-se parte regularmente e parte com formas regulares do verbo redimir. Assim, temos: redimo, redimes, redime, remimos, remis, redimem; redima, redimas, redima, redimamos, redimais, redimam; redime tu, redimamos nós."
Abraço e bom fim de semana para todos!
AP

dezembro 14, 2012

.punaise, pionés ou… percevejo?

Percevejos? No Brasil, sim!Fonte da imagem: AQUI.

A. Em Portugal, é possível (e igualmente correto) escolher o estrangeirismo punaise ou a adaptação pionés.
B. Quanto ao Brasil, não encontrei nas fontes nem uma palavra nem outra. Foram voltas e voltas para descobrir como se designa no Brasil esta “espécie de prego de cabeça larga e chata, geralmente usado para fixar papéis”…
Finalmente, numa estratégia de recurso, depositei todas as minhas esperanças na consulta de um dicionário francês-português (do Brasil). Eureka! Lá estava, preto no branco: punaise = percevejo (ou tachinha). Também temos tacha no português europeu, mas não costumamos usar a palavra para nos referirmos ao punaise/pionés.

CONCLUSÕES:
Portugal (norma luso-afro-asiática)
punaise (em itálico ou entre aspas) e pionés
Brasil (norma brasileira)
percevejo (ou tachinha)

Abraço.
AP

dezembro 11, 2012

.“tampar” ou “tapar” a panela?

Fonte da imagem: AQUI.

Por estranho que possa parecer, tanto em Portugal como no Brasil, ambos os termos estão corretos, embora haja diferenças no âmbito de utilização. Tampar é mais específico, pois significa pôr a tampa em algo. Quanto a tapar, podendo ser sinónimo de tampar, é mais geral, pois pode significar cobrir algo (não apenas com uma tampa), entupir, arrolhar, fechar, etc.
 
Abraço.
AP

dezembro 09, 2012

.Vírgula fácil e descomplicada!

A pontuação é um domínio espinhoso. Mesmo havendo alguma margem de manobra, o seu uso não pode ser arbitrário. Estou a preparar um pequeno guia que possa ser fácil de consultar, sem ser simplista. É um trabalho moroso que será partilhado em janeiro de 2013. Enquanto o documento não está pronto, proponho este excelente vídeo sobre o uso da vírgula.
Sente-se confortavelmente e clique na imagem para ter acesso à explicação do Professor Diego.
Fonte da imagem: AQUI.
Notas minhas para Portugal:
1. objeto = complemento
2. gauche = tímido

Abraço e bom resto de domingo!
AP