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maio 15, 2013

.Cidadão admite o plural "cidadões"?

Imagem encontrada AQUI.
 
O tema do artigo de hoje inspira-se no facto de o Presidente da República Portuguesa, Cavaco Silva, ter usado hoje, no seu discurso no Parque Termal do Peso, no norte do país, duas vezes o plural “cidadões”.
A. Regra geral
Há três maneiras de formar o plural das palavras terminadas em –ão: ões (leões), ãos (irmãos) e ães (pães).
A razão desta variação está na forma do étimo latino:
a)    As terminadas em -one formam o plural em ões (leão = leone);
b)   As termindas em -anu dão plurais em ãos (irmão = germanu);
c)    As terminadas em -ane originam plurais em ães (pão = pane).
B. Tendência
1. A maioria das palavras terminadas em -ão forma plurais em ões. Pode estar aqui a causa do “cidadões” usado por Cavaco Silva.
Exemplos:
.balão – balões
.tradição – tradições
.redação – redações
.limão – limões
Nota: todos os aumentativos terminam em ões (solteirões, casarões, casacões).
2. A confirmar esta tendência, todos os termos terminados em -ão que entraram no português a partir do séc. XIX só formam o plural em ões.
 
C. Casos especiais
Para complicar as coisas, há palavras que podem ter dois plurais e outras aceitam mesmo as três formas, estando todas corretas.
Exemplos:
.anciãos, anciões, anciães;
.aldeãos, aldeões, aldeães;
.sultães, sultões, sultães;
.anães, anões;
.corrimãos, corrimões;
.verãos, verões;
.vilãos, vilões.

E cidadão?
1. Infelizmente para o Presidente, cidadão só admite um plural…
2.
a) Não podemos recorrer à terminação da palavra em latim, pois ela resulta da junção cidade+ão. Segundo José Pedro Machado (Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa), o sentido moderno da palavra deve ter vindo do francês citoyen.
b) O único plural considerado correto é cidadãos, mas, considerando as oscilações ãos/ões cada vez mais comuns no discurso dos falantes, é provável que, no futuro, passem a ser admitidos os dois plurais.
Nota: Esta oscilação não é recente. O Houaiss refere, do século XIV, a forma “çiobdadããos”, mas também “cidadões”, do século seguinte…

Concluindo, o Presidente da República deu um pontapé na gramática? Não deu, não senhores! Sendo conservador, limitou-se a recuperar uma forma do século XV, dando ao discurso um toquezinho rétro
Abraço.
AP


9 comentários:

  1. Hum, demasiado simpático para o Presidente, não? Por esse raciocínio, muitos pontapés na gramática se perdoarão.

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  2. O parágrafo final é irónico, Mário.
    Claro que o Presidente merecia umas valentes reguadas!
    AP

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    1. Ok. Acho que fui levado em erro pela leitura dos comentários (ou comentos, como ele lhes chama) de Montexto, que vai sempre buscar coisas do arco da velha.

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  3. Coisa de assessoria de comunicação. Já vi erros do "arco da velha", daqueles que dão um zumbindo no ouvido da gente! Noutros, os olhos gritam! rsrsrsr

    Mas, noto também, um interesse crescente no escrever e falar de maneira correta. Porém, ainda parto do princípio que só escreve bem, quem lê bem. Interpretar um texto, entender as palavras e por ai vai.

    Parabéns pela inciativa, Antônio. Muito bem detalhadas, as explicações.

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    1. Obrigado, Valéria!
      Concordo que a leitura-compreensão é efetivamente um pré-requisito essencial para escrever bem.
      Abraço.
      AP

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  4. Respostas
    1. Como amante da gramática prefiro "cidadãos", no entanto, de nada adianta lutarmos pela grafia correta se os direitos da coisa significada não forem respeitados da forma como está acontecendo no Brasil. Por essa razão, confesso, eu preferiria que a nossa nação fosse composta de "cidadões" mas que tivessem os seus direitos respeitados.
      Nesse caso eu me aliaria ao Presidente Cavaco Silva e aos linguistas e quando alguém me criticasse eu prontamente responderia: "Entendeu, cara? Se entendeu, então não sacrifica!

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  5. Acho que a forma "cidadões" deveria ser considerada a mais correta, isso pelo seguinte motivo:
    A evolução das palavras "leone", "germanu" e "pane" possuem a mesma terminação, "ão", logo, já que possuem a mesma terminação em português e não terminações diferentes, como em latim, deveriam em plural ter a mesma terminação, "ões". Eu acho até mais bonito.
    Não vejo razão em basear os plurais da língua portuguesa de acordo com a forma latina das palavras.

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    1. Independentemente das razões que a razão aparentemente não conhece, aplica-se às regras da língua o princípio que aplicamos a qualquer lei: "dura lex, sed lex"!
      Cumprimentos.

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